Leandro Gabriel – a poética do não dito

Leandro Gabriel – a poética do não dito

Rodrigo Vivas

 

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Foto da obra disponibilizada na página do Viaduto das Artes.

 

 A experiência com obras contemporâneas por vezes exige um grande esforço intelectual e conhecimento prévio do observador, transformando as intenções, os desejos e a expectativa dos artistas em conhecimentos indispensáveis para a compreensão das obras. Este fato, entretanto, não representa um problema quando as estratégias de mediação estão presentes em seus próprios espaços expositivos. O problema ocorre quando o texto ou a explicação torna a obra dispensável. Certamente muitas obras foram construídas com uma história tão fascinante que nos traz uma imensa curiosidade sobre o processo ou pela vida do artista. O processo de construção de uma obra artística é de interesse comum, mas pouca atenção é despendida para o fruidor. Como se sabe, assim como o processo do artista, o sentido de uma exposição muitas vezes se inicia antes do contato com a obra, e assim, como uma música, pode fixar-se na memória por dias. O deslocamento para o Viaduto das Artes foi uma dessas experiências em que a temporalidade se apresenta de forma expandida.

O cotidiano em uma capital como Belo Horizonte faz com que a circulação de pessoas acabe restrita a certos espaços. Como produzir novas experiências? A desarticulação de olhares e lugares parece ser uma das respostas possíveis. A ocupação de um viaduto associa-se a essa perspectiva.

Ao nos aproximarmos do espaço, nos deparamos com um grande número de instrumentos musicais suspensos. No horizonte das artes visuais, instrumentos musicais, já estiveram presentes no trabalho de muitos artistas, aos quais podemos mencionar – entre os mais potentes –, as Guitarras de Pablo Picasso em vista da problematização de uma linguagem artística específica e na elaboração de hachuras e cordas capazes de simular o efeito de perspectiva.

 

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Picasso. Guittara, 1914. Papel. 33,6 cm x 16,5 cm. Acervo do artista.

 

O discurso da função do objeto se vê alterado para a construção de um novo signo.  Rosalind Krauss (2001) dedica um excepcional ensaio sobre tais relações ao comparar os níveis de experiência do espectador em seu contato com a obra. Na observação da autora: “Picasso decora alguns de seus planos com uma trama de linhas que remete à função da hachura em desenhos ou pinturas”. (KRAUSS, 2001, p. 63). Mas como o violino é tridimensional o “sombreado ou hachura lhe são obviamente supérfluos”. (KRAUSS, 2001, p. 63). Porém essa não parece ser a questão formulada pela obra de Leandro Gabriel.

Os instrumentos pendurados assumem um valor ameaçador. A aproximação revela que os instrumentos estão destituídos de sua função: não possuem corda e estão repletos por pequenas imperfeições. Os objetos não são convidativos e o universo produzido não permite ser penetrado, tamanha a ameaça que os constitui. Seria legítimo relacioná-los aos móbiles de Calder, ainda que não possuam a mesma leveza.

 

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Alexander Calder. Antennae with Red and Blue Dots. 1953. Tate.

 

Carros perpassam o viaduto – em pleno funcionamento. Os instrumentos vibram, se movimentam. Tal qual a imprevisibilidade de um relógio caduco, a energia da cidade e o pulsar da vida operam silenciosamente, sem ritmo.

 

 

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Fotografia da Exposição. Ao fundo o Maestro Silvio Viegas.

 

Caminhando pela exposição nota-se um telão ao qual aparece o maestro Silvio Viegas executando uma sinfonia igualmente silenciosa. Os gestos são formulados com uma coerência magistral, não para esses instrumentos, inaptos a converterem notas musicais em sonoridade. Por qual razão um maestro com tamanha habilidade regeria um conjunto de instrumentos mudos, impossíveis de serem executados mesmo pelos melhores músicos?

Ainda que a relação com o trabalho de John Cage nos pareça imediata, o silêncio não é apenas a construção de uma expectativa não realizada. Aqui o diálogo se tornou impossível. A ameaça causada por estes instrumentos, como em um “freak show”, é tão próxima às esculturas de Richard Serra, embora em uma estabilidade confortável.

Toda essa esfera é arrematada por algo que até então tem sido raridade nas exposições de arte: um texto bem escrito que potencializa a obra de Leandro Gabriel. A assinatura é de Sérgio Vaz que oferece não a explicação, mas a certeza o silêncio pode ser aceito como provocação.

 

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